ROTA 66: RESENHA DO LIVRO-REPORTAGEM DO JORNALISTA CACO BARCELLOS

A tragédia na elite paulistana, o caso da Rota 66, e crueldade tática da polícia militar de São Paulo, apresentados pelo jornalista Caco Barcellos 

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“Eles chegaram no IML com os olhos arregalados de medo e a cabeça toda furada de balas.” – Sidiney M., abril de 1985. Declaração no livro Rota 66

O livro-reportagem publicado em 1992, Rota 66: A história da polícia que mata, mostra pelas palavras e ótica crítica do jornalista gaúcho Caco Barcellos, a abordagem violenta e errônea dos policiais militares na cidade de São Paulo.

O caso principal conhecido por Rota 66, dá nome ao livro. Trata-se da perseguição e assassinato brutal de três jovens, de classe média-alta, na década de 70, no bairro nobre do Jardins. Os garotos, Francisco Noronha, 17 anos, Augusto Junqueira, 19 anos, e Pancho, de 21, frequentavam o clube Pinheiros e outros lugares da burguesia paulista, o que os diferencia do alvo da polícia.

Na madrugada do crime, os jovens tentavam furtar um toca-fitas quando foram surpreendidos pela da Rota 17. Em instantes o ocorrido se transformou em uma perseguição que envolveu diversos Veraneios cinzas da PM, incluindo a temida Rota 66, e o Fusca azul, que o menor de idade, Noronha dirigia. O fim trágico, teve início quando o Fusca colidiu com um poste em frente ao número 66 na rua Alaska com a Argentina.

Os policiais da Rota 66 já tinham assumido o comando da ação, e o objetivo era apenas um: aniquilar os supostos criminosos. O jovem motorista saiu do carro assustado e clamou em grito pela vida “não atirem!”.  A voz foi calada com o barulho da metralhadora disparada. Os três garotos, em uma infelicidade de suas vidas, são alvejados, a quantidade absurda de tiros não tinham a intenção de ferir, mas sim matar e marcar o corpo.

Esse cenário se repetiu muitas vezes durante os anos 70 até meados da década de 90. A Ronda Ostensiva Tobias de Aguiar, a Rota, escolhe sua vítima, acusa um suspeito por simples desconfiança, persegue e mata. O boletim de Ocorrência, único registro quando a vítima é pobre, ou seja, na maioria dos casos, esconde a realidade cruel e alimenta o padrão heroico da PM.

A história registrada é sempre a mesma, a polícia surpreende um cidadão que julga ser culpado, o mesmo reage ao mandato de precisão e foge.  Durante a perseguição o suposto criminoso abre fogo contra os policiais que reagem em legítima defesa, mas em um “acidente” acaba atingindo os órgãos vitais das vítimas e em um ato de nobreza levam os cadáveres para serem socorridos no hospital mais próximo.

O livro Rota 66 conta com uma narrativa direta e chocante, que prende o leitor.  O relato se divide entre as descrições, em detalhes,  das perseguições e crimes apurados. E na vivência do jornalista entre as redações, aonde lia os arquivos do jornal Notícias Populares e o os corredores e salas do IML, local que consegue apurar boa parte das informações para compor um Banco de Dados dos crimes cometidos pela PM.

Caco Barcellos apresenta com o livro Rota 66, uma verdadeira reportagem investigativa, realizada em anos de pesquisa que identificou cerca de 4.200 de pessoas mortas pela PM,  que considera o principal “matador” do país.

A caso da Rota 66 terminou sem culpados. Virou notícia por uma particularidade, a condição financeira e social das pessoas mortas. A insistente pressão da família, moveu a abertura de um inquérito, de responsabilidade da polícia civil. Mas não condenou os assassinos.

Quase 30 anos após o livro ser publicado a história dos policiais da Rota 66 continua se repetindo em diversos lugares do país. A abordagem se mantém agressiva e preconceituosa.  As vítimas são as mesmas apresentadas por Caco em seu Banco de Dados particular, jovens, negros e periféricos, em geral sem antecedentes criminais.

As mudanças ficam apenas para o cenário de denúncia, que foi possibilitado, além da incerteza ao ouvir a versão dos fatos que os policiais contam. Após o final da leitura, permanece o sentimento que faltaram páginas, que diversos casos ainda precisam ser contados, infelizmente, Rota 66 permanece uma história atual.

 

 

Livro:

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Rota 66
Caco Barcellos
Editora Record
352 páginas

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